terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Em queda livre


O Sporting constitui-se, neste momento, um dos casos mais difíceis de entender no panorama futebolístico nacional. Escrevo sobre o clube não como reacção a (mais) um desaire do clube, mas sim em resposta ao que, ao longo dos últimos anos, temos vindo a assistir. A equipa de futebol arrasta-se em campo, a formação já não parece ser a solução para todos os problemas e o clube chega a Janeiro já a pensar na época seguinte porque já esgotou todos os créditos até aí.

Comecemos por esta pré-época e analisemos a transferência mais mediática dos últimos anos do futebol nacional – João Moutinho. Independentemente das culpas que o próprio jogador possa ter em todo o processo, considero completamente descabido como é que um clube que pertence à classe dos “grandes” consegue vender o seu melhor jogador, capitão e símbolo do clube ao maior rival. Normalmente, este tipo de vendas (ainda que a preços inferiores) ocorre em clubes de 2ª linha do futebol português que, por imperativos financeiros, se vêem obrigados a vender os seus melhores jogadores aos três grandes.

A má planificação do plantel não termina no capítulo das vendas. O suspiro que dura há cerca 3 meses por um “pinheiro”, a falta de consistência táctica que a equipa apresenta e as contratações que parecem estar desfasadas daquilo que o treinador pretende, são igualmente equações à espera de explicação.

Tudo isto acaba por redundar numa irregularidade exibicional que chega a ser confrangedora. Os adeptos deixam de estar com a equipa de forma tão intensa, as claques acusam a direcção de opressão à liberdade de expressão e as personalidades sportinguistas trocam acusações.

Fosse este um problema unicamente desta época e tudo poderia ser facilmente resolvido. No entanto, mesmo o mais indefectível sportinguista, deverá concordar que a falta de sucesso desportivo que o clube apresenta, se deve muito mais a um problema estrutural do que a uma mera conjuntura. Os dirigentes vão mudando mas a política do clube parece deteriorar-se de ano para ano, encurtando igualmente os fundos existentes para investir o que provoca o aumento do fosso para Benfica e sobretudo para o FCPorto.

A meu ver, só uma mudança séria nos fundamentos que norteiam toda a estrutura do clube, poderá alterar o caminho que agora parece ser o mais provável – o de distanciamento para os outros dois grandes ao longo dos próximos anos.

Esperemos que o Sporting “não dê um passo em frente neste abismo” que se encontra e que passemos a ver um leão a rugir bem alto e a mostrar que a luta se faz a três e não apenas a dois clubes.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A crise aqui também


Como todos sabemos, atravessamos actualmente uma das maiores crises económicas que algumas vez se registou no nosso planeta. Afecta vários espaços geográficos, várias economias, vários sectores. E o sector desportivo, particularizado neste caso no mundo do futebol não é excepção. A questão que aqui levanto hoje é então a seguinte: Deveria haver algum organismo que limitasse os tectos salariais dos jogadores e de transferências entre os clubes?

Vejamos então. O futebol é vivido no momento. Ou quase. Há presidentes que nem um mandato cumprem e tentam tudo para entrar na história. Não se preocupam com quem virá depois deles. Endividam (ou endividaram) os clubes, veio a crise financeira e com ela o decréscimo de patrocínios. As despesas cresciam, as receitas não... Situação que para muitos clubes se veio a tornar insustentável. Esta situação começou por baixo, em clubes de menor escala. Mas não poderá ela atingir clubes de maior dimensão (dimensão mundial e europeia) levando à destruição de clubes com história?

Sou da opinião que deveria existir um organismo capaz de analisar as contas dos clubes e evitar situações de potencial risco para os mesmos. Limitar salários e valor de transferências poderia ser uma forma de ter mais dinheiro para investir noutras áreas do futebol (percentagem mínima reinvestida na formação) e noutras modalidades. Aumentando a percentagem a receber pelo clube formador de jogador (sobraria dinheiro para isso) aumentaria a aposta de todos os clubes nos seus "miudos" e levaria à diminuição da rotatividade de jogadores, aumentando porventura o tão falado amor à camisola.

Tudo isto não passa apenas de algumas teorias que poderiam resultar na prática. A única certeza que temos é que o mundo do futebol é também (e sobretudo) um mundo económico. E como tal poderá não escapar ileso à crise...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Futebol segundo Wenger


A Premier League representa uma filosofia de viver o futebol. Paralelamente a muitos outros aspectos da sociedade inglesa, os ingleses apresentam um campeonato muito próprio e distinguem-se simplesmente por serem diferentes na forma como abordam o jogo, a sua gestão e a sua envolvência.

Em Inglaterra não há treinadores mas sim “managers”, o que significa que por eles passam não só a orientação dos treinos e a preparação dos jogos em si mas também tem uma voz importante nas decisões de alto nível no que toca a políticas de contratações e de formação, remodelações das infra-estruturas de treino, definição da equipa técnica, etc.

Assim em volta da figura de um “manager” muito facilmente se poderá formar uma certa aura representativa de uma filosofia de jogo que se demarca das restantes e que perduram no tempo independentemente dos sucessos e insucessos. E é este pormenor que também ajuda o futebol inglês a revelar-se fascinante.

Um exemplo muito claro é o Arsenal de Arsène Wenger. Foi em 1996 que o manager francês assumiu a liderança dos gunners e dali nunca mais saiu. Com base numa mentalidade fixa e determinada, lançou uma estrutura de base sólida e dali construiu um projecto coerente que, com todos os seus defeitos, se manteve no tempo e atingiu os seus sucessos. O Arsenal de Wenger não gosta de contratar estrelas já feitas, antes prefere moldá-las desde jovens. O estilo de jogo arsenalista sempre se demarcou pela sua grande velocidade aliada à técnica, passes rápidos, grande mobilidade e uma mentalidade ofensiva ininterrupta. As vantagens mostram-se claras aos nossos olhos quando vemos um futebol vistoso, eficaz, e cuja máquina quando bem oleada chega a assustar qualquer adversário. No entanto as desvantagens também se tornam evidentes quando surgem algumas derrotas inexplicáveis muito devidas a alguma falta de rigor defensivo e escassez de espírito resultadista.

No entanto, o que gostaria de salientar, é que o império de Wenger nunca se desmoronou, continua vivo. Por mais anos que passem, mesmo longe dos títulos, existe uma veneração, um respeito e uma paciência perante um projecto que se vai desenvolvendo com os seus altos e baixos. Os adeptos e todo o resto da comunidade gunner sabem esperar e também sabem que o futebol muitas vezes faz-se por ciclos, em que após o sucesso há tempos de acalmia e de um baixar de hostes. Entretanto, desfrutam do seu futebol, da sua filosofia, do seu modo de vida, produzindo e ajudando a formar inúmeras estrelas que singram no futebol mundial. Um verdadeiro exemplo para determinadas culturas futebolísticas onde a chicotada psicológica é sempre a solução número um.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Futebol: que papel no nosso país?

Somos um país pequeno, num cantinho da Europa… Os estrangeiros conhecem-nos porque sabem que ficamos ao lado da Espanha, outros pensam que somos uma província espanhola…
Contudo, se porventura ousarmos pronunciar além-fronteira o nome “Eusébio”, “Cristiano Ronaldo”, “Mourinho”, ouvimos inevitavelmente o nome Portugal!

Podem-nos chamar atrasados, incultos, se calhar parolos, mas contra factos não há argumentos: temos em Portugal alguma área onde tenhamos tamanho reconhecimento e sucesso? Temos alguma área onde sejamos tão respeitados como no futebol?

Sim, chamem-me o que quiserem, mas gostava de conhecer alguém que chegue ao estrangeiro e se orgulhe de falar do nosso nível cultural, da nossa taxa de desemprego, do nosso défice, do (não) cumprimento das medidas estabelecidas pela UE, da taxa de escolaridade, da situação financeira da maioria das nossas instituições ou até da (miserável) importância e influência que possuímos nas relações que estabelecemos com os outros países.

No futebol não é assim: somos respeitados, normalmente andamos nos patamares mais altos a nível mundial, temos protagonistas que são reconhecidos e invejados mundialmente pelo seu talento e sucesso e devemos estar gratos a esta modalidade pois é talvez o principal veículo de exposição mediática no nome “Portugal”.

Assim, importa reflectir sobre duas coisas: não querendo roçar o nacionalismo bacoco, penso que é altura de parar e deixar de criticar todos os portugueses que atingem o sucesso; ao mesmo tempo que penso que o futebol deve ser respeitado e admirado pela importância que possui no nosso País e na imagem que possuímos lá fora.

Por muito que os senhores investigadores, os aculturados, os Professores Doutores, os iluminados, os craques da inteligência queiram dizer que o futebol é para incultos e que não dá de comer a ninguém, que sejam capaz de me mostrar outra área onde o sucesso seja igual ao que já fomos capazes de atingir no futebol.

Para além disso, podemos ainda falar do PIB da felicidade, para a qual certamente o nosso futebol muito contribui, se bem que neste momento o PIB da felicidade dos benfiquistas deva ser parecido com o PIB da Irlanda, mas nada que uma vitória na próxima jornada sobre o todo-poderoso Rio Ave não inverta, e mostre que afinal o Benfica tem equipa para ganhar a Liga Europa.

Uma crença que apenas permanecerá até o Benfica jogar outra vez na Europa…

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Culpar é sempre mais fácil!

Vivemos num país onde elogiar o colega do lado é cada vez mais difícil. A crise não se cinge só à esfera financeira e a crise de valores parece alastrar a olhos vistos. A crítica é feroz e aparece à primeira oportunidade. Não se valoriza o que de bom é feito, procurando-se sim detectar o primeiro erro para, logo aí, atacar para deixar o adversário (ou colega) KO!

Em traços gerais, assim se caracteriza o estado da nação!

Tal como uma vez referi, o futebol é uma verdadeira montanha russa de emoções, sentimentos e opiniões. Tão depressa alguém está nos píncaros como, logo de seguida, já se está na lama. Os treinadores são, provavelmente, o rosto mais fácil de culpar e, não raras vezes, o menos valorizado nos sucessos. Ao mínimo deslize é ele o primeiro a cair, tentando encobrir outras deficiências estruturais bem mais profundas.

Reparemos no caso mais paradigmático – José Mourinho. Recuem alguns anos no tempo e lembrem-se dos adjectivos que, todos os dias, lhe eram atirados à cara aquando da sua “estadia” em Portugal. (Pausa)

Já está? Pois bem! Toldados pelo fanatismo ou inveja bacoca, todos os adeptos dos outros clubes não conseguiram nessa altura, reconhecer as capacidades inegáveis de alguém que já aí demonstrava estar acima de todos os outros. Teve que sair de Portugal para, no minuto seguinte, começar a ser aclamado pela imprensa portuguesa. Faz sentido? Não!

O mesmo parece estar a passar com dois treinadores a quem reconheço enormes competências – Jorge Jesus e André Villas-Boas! O primeiro porque se fala mais dos seus pontapés no português do que na sua capacidade de colocar as equipas por onde passa a jogar um futebol muito atractivo e consistente. O segundo porque por viver o jogo intensamente e por estar a ter um trajecto, até ao momento, imaculado, não parece estar a cair no goto de alguns.

Todos nós sabemos que, tanto um como outro, têm capacidade para vingar no estrangeiro e, nessa altura, que ninguém duvide que terão sucesso e serão elogiados. No futebol português parece não haver espaço para este tipo de treinadores bons porque se torna difícil elogiar o adversário e reconhecer nele competências com as quais poderemos tirar alguma coisa de benéfico.

Para terminar, deixo uma frase que foi proferida por um treinador de futebol que treinou um dos grandes:

“Temos que jogar à Porto!”

Foi Camacho e acabou despedido…

sábado, 4 de dezembro de 2010

Assim podemos ir lá...


Desde o tempo em que treinava o Sporting, sempre tive uma certa admiração por Paulo Bento. É certo que nunca foi um treinador que se afirmasse plenamente com vitórias em competições ou que se apresentasse cá fora com um carisma marcante. No entanto, apesar de não ganhar competições, Paulo Bento fez bons resultados no Sporting (vários segundos lugar), deu sempre a cara na hora de defender os seus jogadores (tendo o tempo sempre acabado por lhe dar razão) e lançou alguns dos jogadores que actualmente actuam na nossa selecção (casos de Nani e Miguel Veloso). Continuo a achar que se o Sporting não esteve bem no seu tempo, com a sua saída conseguiu tornar-se ainda pior. Mas isto não interessa falar agora.

Li uma entrevista no nosso seleccionador Paulo Bento em que diz que somos um povo do 8 e do 80. Ainda há pouco tempo não iamos ao Europeu como agora já somos candidatos ao título. Isto caros leitores, não poderia caracterizar melhor a forma como a nossa população vê o futebol e, infelizmente, muitos aspectos da nossa vida.

Era urgente operar uma mudança na mentalidade da nossa selecção. Sim, porque os jogadores não poderiam mudar muito dos utilizados por Carlos Queirós. Paulo Bento começou essa mudança e tem vindo a consolida-la. Não está já concluída e não somos novamente uma equipa de geração de ouro. É por isso que, tal como Andre Villas-Boas prepara os adeptos do FCPorto para a primeira derrota, também Paulo Bento irá algum dia perder um jogo. E o entusiasmo que novamente ganhamos com a nossa selecção não se pode perder aí.

Os meus parbéns ao nosso seleccionador, pois mostra saber preparar uma equipa no terreno e os adeptos à volta dela. Coisa que já não se via desde o saudoso Luís Filipe Scolari, mas que agora pode ver um substituto que poderá estar à sua altura...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Já está ganho!


Será amanhã, quinta-feira, que será anunciada a decisão de quem serão os organizadores do Campeonato do Mundo de Futebol de 2018. A nossa candidatura conjunta com Espanha apresenta uma concorrência muito forte que provém das candidaturas inglesa, russa e da parceria holandesa e belga.

Não é fácil prever um vencedor, e como a comunicação social já tratou bem de esclarecer ao longo destes últimos dias, a candidatura eleita não será somente baseada na qualidade e viabilidade do projecto mas também com base na sua força no jogo de influências e capacidade de mexer com os instintos lucrativos da FIFA.

Contudo, independentemente do sucesso da nossa proposta, um ponto muito positivo poderemos retirar de tudo isto, e tal será a vontade mútua de haver uma cooperação ibérica. O nosso país poderá estar a ultrapassar tempos difíceis e enfrentar cenários bem pessimistas, mas a verdade é que mesmo ao nosso lado temos um vizinho poderoso. É um facto que a Espanha, acompanhando a tendência dos restantes países europeus, também não atravessa tempos fáceis, mas no entanto continua a apresentar uma economia poderosa e uma população altamente instruída e qualificada para além de desenvolvida em várias vertentes.

Poderemos dizer que os espanhóis apresentam uma das culturas desportivas mais fortes do mundo. São e já foram campeões numa variedade enorme de modalidades para além do futebol, tais como o basquetebol, futsal, hóquei em patins, ténis, ciclismo, desportos motorizados, etc. Todo este enorme sucesso certamente será devido ao enorme valor que a sociedade espanhola dá ao desporto como um pilar fundamental na sociedade e tudo isso é reflectido não só nos sucessos desportivos como também na qualidade da sua formação, das suas infra-estruturas e também nos grandes investimentos que são realizados.

Temos o privilégio de ter um país irmão que é um exemplo de elite a nível desportivo. Chegou a hora de ver, estudar, aprender e por fim absorver o valioso know-how que se encontra mesmo debaixo dos nossos olhos. Sejamos perspicazes, deixemo-nos de preconceitos patrióticos e comecemos a criar uma verdadeira parceria não só assente na organização de um campeonato do mundo mas em tudo o que é desporto e muito mais. Se foi mesmo com base nesta mentalidade que juntamos forças então nem precisamos de saber o resultado amanhã. Já ganhámos!